segunda-feira, 23 de janeiro de 2017


( a meu pai, in memoriam)


Este é um crepúsculo deserto,
rosa que te ofereço em seu desígnio,
amanhecer perdido
num poema,
num signo.

Esta é a saudade dos caminhos viajantes,
flor do mar adiante-
música 
que se fez luz das minhas lágrimas.


mariagomes


quarta-feira, 28 de dezembro de 2016


Da minha morte ninguém falará.
Fecharei os olhos ante paisagens reais.
A minha morte será um delírio,
um excesso, uma dor,  um cais, um desvio...
Seja o que for,
tenho o desejo de não ser em todos os espaços.



mariagomes


Dai-me a claridade secreta a claridade que cega
a claridade que se sacia nas migrações de sangue
celestes
Dai-me o infinito milagre das mãos
palavras de neve
a raiz acesa dos campos de trevos.


Quero morrer num horizonte que seja a labareda de um grito
ou o regaço dos desertos que escrevo.


mariagomes

Não sei dizer que te amo
E amo as árvores erguidas à semente azul ao sonho
muito antes do anoitecer.
Que trigal vem ao meu canto?
Que ferida aberta
 atravessa devagar a luz funda descoberta?
Não sei dizer que te amo
e o que amo.


mariagomes

terça-feira, 1 de novembro de 2016


Nunca mais escrevi um poema como uma dor universal
uma dor até aos dentes
bramindo contra os tiranos.
Nunca mais a palavra inundou os meus olhos
apontando para o vértice
para o sal e para os gritos,
e foi tão leve...
nunca mais a flor foi semente.


mariagomes

quarta-feira, 5 de outubro de 2016


Às vezes ponho-me a escrever na esperança de que nasçam estrelas
nesta paz dor(mente), nesta paz que é dor e mente
Às vezes ponho-me a escrever nesta morada que me foge
que me leva as mãos a um grito imoerredouro
a um grito que se faz pedra
noite e gestação.

Às vezes ponho-me a escrever como entrega, como quem faz um voo.


mariagomes

sexta-feira, 23 de setembro de 2016



A memória que guarda o teu nome. A madrugada a doer, a doer-me muito.
Este cantar lúcido das águas.
Tu és belo como esse canto, esse perfeito tiro ao alvo ao fundo da noite
das fogueiras adormecidas.
Que segredo se oculta, em esplendor, onde teu corpo habita?
Quem te nomeia nesse mar tão branco
rosa púrpura?
O que amas? A orla do rio, ou a raiz deserta?

A madrugada a doer, a doer-me muito.



mariagomes